Com tecnologias de observação e análise de dados, o CEMADEN monitora os impactos da seca e produz informações fundamentais para a formulação de políticas públicas voltadas às populações rurais.
Por Julia Saggioratto, assessoria de comunicação da Rede de Estudos Rurais.
Assim como o Brasil, constituído em uma diversidade de povos, biomas e climas, a seca, quando se manifesta em solo brasileiro, também se apresenta de diferentes formas nos diferentes momentos, mesmo em um mesmo território. Apesar de ser um fenômeno amplamente divulgado nos meios de comunicação, ainda deve ser considerado como um assunto que demanda atenção da academia e do Estado. Por ser silencioso, esse tipo de desastre natural possui especificidades que o fazem ser percebidos somente depois de ter se estabelecido completamente. Isso significa que as famílias da agricultura familiar, que possuem uma relação de maior dependência dos recursos naturais para manter sua subsistência, são mais vulneráveis à seca e a identificam a partir das consequências diretas na sua sobrevivência, que afeta a base material da vida dessas pessoas.
Um estudo na área da Psicologia Rural realizado na região noroeste do Rio Grande do Sul por Eveline Favero e Vivien Diesel (2013) com famílias da agricultura familiar buscou identificar os impactos psicossociais da seca para essas famílias e as principais estratégias de enfrentamento a esse processo. A pesquisa demonstra que os/as agricultores/as lançam mão de diversas estratégias para atravessar esse período que gera impactos econômicos, sociais e psicológicos. “As falas indicam que a solução que cada família encontra para reduzir as perdas, prejuízos e assegurar a sobrevivência material e o negócio agrícola depende muito de como a seca se manifesta, os recursos e a rede de relações de que dispõe a família” (FAVERO; DIESEL, 2013, p. 7).
As autoras mencionam que as políticas públicas direcionadas a essa população não devem ser ocasionais ou apenas posteriores às perdas, mas, sim, possibilitar a prevenção da ocorrência de perdas, a fim de garantir a saúde e a qualidade de vida das famílias. Neste sentido, é importante mencionar a criação do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (CEMADEN), uma instituição pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação que atua no “apoio técnico e científico ao Governo Federal nas áreas de monitoramento de riscos, sistemas de alerta precoce e prevenção de impactos decorrentes de desastres naturais, como inundações, deslizamentos de terra e secas” (GOV.BR, 2026).
O CEMADEN foi criado em 2011 durante o grave contexto de desastre que ocorreu na região serrana do Rio de Janeiro, nos dias 11 e 12 de janeiro. Naquele momento, enchentes e deslizamentos provocados por fortes chuvas causaram mais de 900 mortes, cerca de 350 desaparecidos e milhares de desabrigados, além dos danos estruturais, geográficos e econômicos. Este foi considerado, pela ONU, o 8º maior deslizamento ocorrido no mundo nos últimos 100 anos (BUSCH; AMORIM, 2011).
Conversamos com Ana Paula Cunha, Física formada pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), doutora em Meteorologia no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que está presente no CEMADEN desde sua criação. Ela menciona que o objetivo inicial da instituição era monitorar e emitir alertas para desastres relacionados à muita chuva, no entanto, em 2012 teve início a grande seca na região semiárida, uma seca histórica, muito extensiva, que durou cerca de cinco anos e causou impactos em diferentes setores, como de abastecimento público e de produção agrícola, sobretudo para a agricultura familiar, o que demandou ao CEMADEN a realização do diagnóstico de municípios afetados pela seca em 2013.
Naquele momento ainda não existia, no Brasil, uma instituição responsável pelo monitoramento e diagnóstico de impactos da seca, apenas órgãos relacionados ao clima e previsão do tempo, como o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o INPE. A partir de então o CEMADEN iniciou sua expansão, montando uma rede observacional de pluviômetros na região semiárida voltada para o monitoramento de colapso de safras da agricultura familiar. “Os nossos pluviômetros, diferentemente dos outros municípios, que são em áreas de risco, de deslizamento, inundação, geralmente estão em comunidades, na laje. A rede do semiárido foi montada dentro de áreas de agricultura familiar, justamente para poder ter insumos de informação para monitorar esse público, então foram instalados em áreas rurais mesmo”, destaca Ana Paula.

Impacto direto na vida dos agricultores
Ainda em 2014, durante a seca histórica no semiárido brasileiro, o Governo Federal utilizou de programas para a mitigação dos impactos da seca, como a Operação Carro-Pipa e o Garantia Safra. Este último era destinado a agricultores que tiveram perda comprovada de pelo menos metade da sua produção em razão de seca ou inundação. No entanto, as famílias da agricultura familiar acabavam não sendo contempladas neste programa, o que motivou a criação do Bolsa Estiagem, um benefício destinado a populações de baixa renda. Naquele contexto, o CEMADEN desenvolveu uma informação construída com base em dados de satélite para identificar os municípios mais impactados pela estiagem. “Nós utilizamos essas ferramentas para fazer o levantamento contínuo dos municípios que poderiam estar sendo afetados pela seca. E a partir daí, com a rede observacional e com algumas ferramentas que começamos a construir, nós fomos caminhando”, ressalta Ana Paula.
De lá para cá, o CEMADEN realiza o diagnóstico em todo o Brasil com uma ampla rede de sistemas de monitoramento e de parcerias com órgãos federais, estaduais e municipais, contando com um corpo técnico multidisciplinar formado por pesquisadores, analistas e especialistas em áreas como meteorologia, hidrologia, geologia, geotecnologias e gestão de riscos de desastres. A instituição possui um conjunto de produtos informacionais desenvolvidos no monitoramento sistemático dos impactos da seca para diferentes setores, como o setor de recursos hídricos, da agricultura familiar, de controle de propagação de queimadas, além de participar de planos nacionais como o Plano Nacional de Enfrentamento à Estiagem Amazônica e Pantanal (PNEAP) e o Plano Nacional de Proteção e Defesa Civil (PN-PDC), criado para auxiliar o Brasil na resposta a desastres, como inundações, enxurradas, movimento de massas, seca, entre outros.
O CEMADEN também fornece informações para programas como o Garantia Safra, para o reconhecimento federal em situações emergenciais de seca, além de participar de salas de crise montadas pelos Ministérios como salas de crise para o fogo, para níveis dos rios, entre outras.
Os produtos informacionais desenvolvidos são atualizados automaticamente todo primeiro dia útil de cada mês. A partir desses dados é possível construir percentuais de áreas agroprodutivas potencialmente afetadas por condições de seca em cada município do Brasil. “A gente tem informações de condições de seca em assentamentos rurais, em unidades de conservação e territórios indígenas. Então nós fomos ampliando o nosso monitoramento até mesmo para territórios que até então não eram monitorados”, menciona a física.
Entre os principais produtos desenvolvidos pelo CEMADEN estão os boletins que disponibilizam mapas e reflexões sobre regiões que são monitoradas. Relacionados à seca, são dois os boletins que fornecem informações, um sobre vegetação, agricultura, impactos e recursos hídricos, e outro específico sobre a agricultura familiar, o RiSAF – Risco de Seca na Agricultura Familiar. A partir do cruzamento de dados sobre estabelecimentos rurais que possuem o Cadastro Ambiental Rural (CAR) junto a mapas de vegetação, sobre locais onde existe vegetação natural, agricultura ou pastagem, é possível observar quais são as áreas potencialmente agroprodutivas de cada município e, a partir dessa informação, avaliar as condições de seca para cada região e as especificidades dos calendários agrícolas das mesmas. “A gente olha especificamente esse período para ver se teve seca ou não, em algum desses meses. Junto com isso, a gente combina também informações sobre vulnerabilidades socioeconômicas. Então a gente tem a intensidade de seca em cada um dos municípios, as áreas rurais de cada um dos municípios e a vulnerabilidade da agricultura familiar nesses municípios”, destaca Ana Paula.
Um dos indicadores de seca utilizados nas análises do CEMADEN é o Índice Integrado de Secas, que mostra regiões com diferentes severidades de seca, o que permite observar a falta de chuva, os impactos na umidade do solo e na vegetação. Com essa combinação de variáveis o CEMADEN consegue observar quais regiões possuem maior dependência da própria produção, qual a renda e outras formas de vulnerabilidade socioeconômica, fornecendo informações fundamentais para a formulação de políticas públicas para as diferentes regiões e realidades do Brasil.
Além de ser um centro operacional, o CEMADEN também opera como unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o que significa que essa instituição desenvolve suas próprias ferramentas e metodologias de pesquisa e análise, se mantendo continuamente em atualização, buscando o que há de mais inovador no âmbito da ciência e tecnologia.
O desafio de prever um clima cada vez mais extremo
Historicamente, o semiárido brasileiro é considerado a região mais afetada pela seca por ser “uma região de clima quente e seco, com estação chuvosa curta e, consequentemente, sujeita à frequente escassez de água” (CASTRO, 2024, p. 6), condições pouco favoráveis ao desenvolvimento da agricultura. No entanto, de acordo com Ana Paula, nos últimos dez anos já não existe uma única região predominante nesse sentido. Ela menciona a última grande seca registrada no Brasil entre 2023 e 2024 que cobriu grande parte da região amazônica, passando pelo Centro-oeste e Sudeste. “Foi a seca mais extensiva que a gente teve no país e, detalhe, nesse período a gente quase não teve seca no Nordeste, no semiárido”, destaca. Segundo ela, essa mudança pode ser associada às mudanças climáticas relacionadas a poluição e o efeito estufa. Com o maior aquecimento as condições atmosféricas se desregulam, favorecendo eventos climáticos extremos com muita chuva em um local e seca em outro. A pesquisadora relembra as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, que aconteceram no mesmo momento que a grande seca em outras regiões. “A gente teve esse sistema de bloqueios atmosféricos que impedem formações de chuva em grande parte do Brasil e ficou aprisionada no Sul. Então foi por conta de um evento de La Niña, mas a gente tem visto que esses bloqueios atmosféricos têm se repetido com maior frequência nos últimos anos e que sim, tem estudos mostrando que tem relação com as mudanças climáticas”, ressalta.
Ana Paula comenta sobre a Nota Técnica NOTA TÉCNICA Nº 627/2026/SEI-CEMADEN lançada em 19/05 que traz informações sobre o El Niño 2026/2027 e os impactos esperados no Brasil. De acordo com Ana Paula, apesar de historicamente o Centro-Norte do país ser mais impactado pelos eventos de El Niño, cada manifestação causa impactos diferentes nos diferentes locais. A Nota Técnica, em consonância, menciona que previsões divulgadas recentemente sobre secas severas na Amazônia e no Nordeste brasileiro, assim como chuvas com potencial catastrófico na Região Sul não são sustentadas por dados científicos confiáveis, o que pode gerar ruído na comunicação com os tomadores de decisões. “[…] ainda não se sabe ao certo se os ventos e outros fatores climáticos irão intensificar ou atenuar o calor oceânico, diminuindo, assim, a probabilidade de um El Niño forte. Os meteorologistas deverão ter mais informações nos próximos meses, após superarem a notória barreira da previsibilidade da primavera” (BRASIL, 2026, p. 3).
O que fica evidente nas reflexões é a imprevisibilidade decorrente dos efeitos das mudanças climáticas. “A gente tem extremos climáticos, ou seja, muita chuva num local e muita seca no outro, […] pode acontecer em qualquer ponto do país, qualquer um dos dois extremos”, ressalta Cunha. Diante da intensificação das mudanças climáticas e da ocorrência cada vez mais frequente de eventos extremos, o monitoramento e alerta contínuo da seca e outros desastres torna-se essencial para a proteção das populações mais vulneráveis, em especial para as famílias da agricultura familiar, que dependem diretamente das condições ambientais para garantir sua subsistência e renda. Nesse contexto, o trabalho desenvolvido pelo CEMADEN evidencia como a ciência, a tecnologia e a produção de dados públicos podem contribuir para a construção de políticas mais eficazes, fortalecendo a capacidade de adaptação dos territórios rurais frente aos desafios de um clima em constante transformação.
Referências
BRASIL. Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN). Nota Técnica SEI/MCTI nº 13770843. São José dos Campos: CEMADEN, 2026. Disponível em: Gov.br – Nota Técnica SEI/MCTI nº 13770843. Acesso em: 8 jun. 2026.
BUSCH, Amarílis; AMORIM, Sônia. A tragédia da região serrana do Rio de Janeiro em 2011: procurando respostas. Brasília, DF: Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), 2011. Disponível em: Repositório ENAP. Acesso em: 5 jun. 2026.
CASTRO, César Nunes de. Capacidade adaptativa às mudanças climáticas de agricultores familiares no semiárido brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 2024. 50 p. (Texto para Discussão, n. 2999). DOI: 10.38116/td2999-port.
FAVERO, Eveline; DIESEL, Vivien. A seca na agricultura familiar: impactos psicossociais e estratégias de enfrentamento. In: I Congreso Latinoamericano de Psicología Rural; I Jornadas Nacionales de Psicología Rural, 2013, Posadas, Argentina. Anais […]. Posadas: [s.n.], 2013. p. 1-11.
GOV.BR. Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN). Disponível em: https://www.gov.br/cemaden/pt-br/acesso-a-informacao/institucional-1/apresentacao. Acesso em: 05 jun. 2026.