Primeira matéria da série especial sobre os 20 anos resgata a trajetória da Rede de Estudos Rurais, desde as articulações iniciadas ainda na década de 1970 até sua consolidação como um dos principais espaços de produção de conhecimento, formação e diálogo interdisciplinar sobre o rural brasileiro.
Por Julia Saggioratto, assessora de comunicação da Rede de Estudos Rurais.
Como parte das comemorações dos 20 anos da Rede de Estudos Rurais, celebrados neste ano, iniciamos, a partir desta matéria, uma série de textos relacionados à concepção deste coletivo e à construção coletiva de conhecimento viabilizados pela Rede. Entre os dias 23 e 26 de junho aconteceu o XII Simpósio de Reforma Agrária e Questões Rurais, na Universidade de Araraquara (Uniara), em São Paulo (SP), evento que contou com a participação de associados e associadas da Rede de Estudos Rurais em sua programação. Durante a atividade foi realizada a primeira mesa redonda comemorativa dos 20 anos da Rede, com a participação de Sonia Bergamasco, Leonilde Servolo de Medeiros e Catia Grisa, conduzidos por Henrique Carmona, dos quais as falas na mesa compõem a narrativa desta matéria. Nesse espaço foi abordado o contexto histórico da Rede e sua importância como espaço de formação e produção de conhecimento sobre o rural brasileiro.
A Rede tem sua origem na década de 1970, período marcado pela repressão e pela censura no contexto da Ditadura Militar. De acordo com a professora Leonilde Medeiros, Professora titular no Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (CPDA/UFRRJ) e membro do Observatório de Políticas Públicas para a Agricultura (Oppa) da mesma instituição, este foi um período paradoxal já que, ao mesmo tempo em que acontecia a cassação e aposentadoria compulsória de professores nas universidades, assim como o controle dos espaços de pesquisa, também foi um momento de criação e consolidação da pós-graduação no Brasil em várias áreas de conhecimento. A constituição da Rede de Estudos Rurais, idealizada nesse contexto, é marcada por iniciativas do Centro de Pós-graduação em Desenvolvimento e Agricultura, vinculado à Escola Interamericana de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (EIAP/FGV), conhecido como CPDA. O Projeto de Intercâmbio de Pesquisa Social em Agricultura (PIPSA), financiado pela Fundação Ford, merece destaque nessa trajetória, já que é considerado um espaço coletivo importante de debate e de discussões realizadas em 1979.

Apesar de haver espaços dedicados a discussões sobre temas como Sociologia, Economia e Administração Rural, por exemplo, o espaço destinado ao debate sobre os estudos rurais era incipiente e não contemplava plenamente uma diversidade temática e a complexidade analítica das pesquisas sobre o meio rural, especialmente as pesquisas críticas orientadas por perspectivas de interdisciplinaridade. Por este motivo, desde seus primeiros encontros, o PIPSA revelou uma capacidade singular de reunir pesquisadores de diferentes regiões do país. “O projeto institui um espaço de interlocução que favoreceu o confronto entre distintas tradições teóricas, experiências empíricas e agendas de pesquisa”, destaca Sonia Bergamasco, professora titular da Universidade Estadual Paulista – UNESP/Botucatu e pela Universidade Estadual de Campinas. De acordo com ela, a organização em grupos temáticos realizada pelo PIPSA desempenhou um papel estruturante nesse processo, permitindo a constituição de comunidades epistêmicas em torno de eixos como Agricultura na Amazônia; Agroindústrias, Cooperativas e Grande Produção Agrícola; Diferenciação da Pequena Produção; Estado e Agricultura; e Movimentos Sociais no Campo. “A ideia era que cada grupo tivesse uma dinâmica própria, o que permitiu encontros em diferentes pontos do país”, ressalta Sonia, mencionando que em cada local que os grupos se encontravam, novos participantes se aproximavam, garantindo uma dinâmica importante ao coletivo que se formava. “[o diálogo] com esses profissionais de diferentes formações, permitiu olhares diferenciados sobre um mesmo objeto de estudo, pesquisadores de diferentes regiões com realidades diversas, além de estudiosos ligados às mais variadas instituições”, salienta.
Entre 1979 e 1984 os grupos temáticos constituídos pelo PIPSA se reuniram em diferentes lugares do país, em diversos momentos, propondo reflexões sobre cada um dos temas, sendo acolhidos na casa de pessoas que passaram, a partir de então, a fazer parte de uma rede de solidariedade. “Isso selou mais do que encontros acadêmicos, selou redes de colaboração, redes afetivas que permanecem até hoje”, menciona a professora Leonilde. As discussões realizadas a partir dos cinco grupos temáticos foram responsáveis por inaugurar a discussão de importantes temas de relevância nacional, a exemplo da inflexão conceitual da Agricultura Familiar, realizada pelo grupo temático de Diferenciação da Pequena Produção, coordenado por Sonia Bergamasco. Leonilde, que coordenava o grupo temático sobre Movimentos Sociais no Campo, destaca que nesse período de censura e controle das narrativas, a produção de conhecimento não possuía espaço para circulação e os diálogos coletivos eram limitados, evidenciando a importância da articulação de diferentes pontos do país. De acordo com ela, esse processo possibilitou retirar a centralidade do estado de São Paulo como espaço de discussão, assim como viabilizar o encontro de jovens pesquisadores.
Devido a diminuição dos recursos financeiros, em 1985 os grupos passaram a se reunir em um mesmo local de forma concomitante, o que mudou a estrutura organizacional do PIPSA. Em 1990 foi criada a Associação PIPSA que, no entanto, não se consolidou. No final da década de 90, no apartamento de Marilena Antoniassi, Leonilde de Medeiros, Delma Peçanha Neves e Maria de Nazareth Baudel Wanderley se reuniram e decidiram por reconstituir o espaço coletivo de discussões sobre os estudos rurais. Elas saíram da reunião com a proposta de um encontro na Universidade Federal Fluminense.
Em 2006, durante o encontro na UFF, nasceu a proposta de construir uma rede. Nas palavras de Sonia Bergamasco, recitando uma frase dita por Dalva Motta, a qual ela nunca esqueceu: “Eu acho que a gente devia criar uma rede. E aí o próximo encontro a gente põe assim: ‘No balanço da rede’”. Ainda no encontro, durante a assembleia, a proposta de criação de uma Rede de Estudos Rurais foi aprovada, ocasião em que já foi elaborada e aprovada uma minuta de estatuto e eleita a primeira diretoria que foi composta por Maria de Nazareth Baudel Wanderley, Sonia Maria Bergamasco, Alfio Brandenburg, Roberto José Moreira e Dalva Motta. “A partir daí se consolidava uma associação científica multidisciplinar voltada aos estudos do rural brasileiro”, destaca Sonia, ressaltando o papel fundamental que a Rede vem desempenhando, desde então, na redefinição das agendas de pesquisa e na consolidação de um campo de estudos comprometido com a compreensão crítica das transformações do mundo rural brasileiro. A professora Leonilde destacou, ainda, a centralidade da atuação de mulheres na criação da Rede, hoje chamadas de matriarcas.

Das primeiras articulações à criação da Rede
Com a criação da Rede, para além de manter os grupos de discussão, este grupo à frente do coletivo se preocupou em realizar algumas alterações na estrutura de organização antes praticada com o PIPSA e a APIPSA. Uma das mais importantes e que, segundo Leonilde, é objeto de polêmica até hoje, é o formato dos Encontros realizados pela Rede a cada dois anos. Nessa configuração o coordenador de cada Grupo de Trabalho recebe as pesquisas e produz uma síntese provocativa sobre questões teóricas presentes no conjunto dos trabalhos. Apesar de algumas pessoas sentirem que não possuem espaço para apresentar seus trabalhos, Leonilde destaca que, do ponto de vista teórico, epistemológico e metodológico, os avanços são grandes, já que diferente de uma sucessão de trabalhos com um pequeno tempo de apresentação, é possível aprofundar o tema a partir do diálogo e da troca de experiências.
Outra mudança realizada na metodologia dos encontros se relaciona com a impermanência dos temas dos Grupos de Trabalho. A cada Encontro se criam grupos a partir do que se considera relevante dentro das demandas de cada momento. Além disso, a participação de jovens pesquisadores/as também fez parte de alterações na organização dos Encontros da Rede. Segundo Leonilde, os estudantes de graduação possuem pouco espaço nos eventos científicos, então a ideia, que funcionou durante um tempo e se pretende reintroduzir nas atividades da Rede, é dedicar um espaço especial para esses/as estudantes. Para além disso, a pesquisadora e co-fundadora da Rede de Estudos Rurais ressalta que nesses 20 anos esse coletivo tem realizado um esforço permanente de se manter como um espaço interdisciplinar e de aprofundar discussões teóricas e metodológicas fundamentais para os estudos rurais no Brasil, e que talvez seja momento de cruzar o olhar com demais países da América Latina e África, ampliando o diálogo entre os países do Sul do mundo.
Da perspectiva individual à coletiva, a Rede marcou a trajetória de inúmeros/as pesquisadores/as, a exemplo de Cátia Grisa, professora adjunta na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que menciona o impacto desse coletivo na sua construção profissional. Cátia, que já coordenou Grupos de Trabalho em Encontros e já fez parte da diretoria da Rede, destaca esse espaço como facilitador de encontros, além de mencionar sua capacidade de renovação. “É uma sociedade também dinâmica e todos os encontros que a gente vai, a gente se admira da quantidade de mestrandos e doutorandos novos que estão compondo a rede, que ilustra esse processo de formação contínua de diferentes espaços”, ressalta a pesquisadora. Para ela, o reconhecimento da Rede por outras sociedades científicas nacionais e internacionais, assim como pelo âmbito da política institucional é um desafio importante a encarar, o que poderia viabilizar melhores condições de manutenção financeira desse coletivo. “Isso nos permitiria dar muito mais visibilidade e nos permitiria ter atividades para além dos encontros, dinamizar a rede”, finaliza.
Presente na plateia, Sérgio Sauer, professor da Universidade de Brasília (UnB), revelou que, ao ouvir as falas da mesa, parecia estar ouvindo sua própria história e que os relatos sobre a caminhada da Rede o fizeram refletir sobre a possibilidade de esse coletivo criar uma nova disciplina, trazendo a criticidade para os estudos sobre o rural brasileiro. Também contribuiu Leandro Lima Santos, professor adjunto da Universidade Federal de Goiás (UFG) e integrante da atual diretoria da Rede. Ele apontou sobre uma inquietação que ele acredita ser compartilhada entre os associados e associadas desse coletivo, que é o sentimento de pertencimento que antes da Rede, não era tão presente em sua caminhada como pesquisador.

Por fim, para descrever a trajetória da Rede, Luís Antonio Barone, livre-docente em Sociologia da FCT/Unesp, que acompanhava as falas na mesa, utilizou o conceito de rizoma, que na botânica é um caule que cresce debaixo do solo sem uma direção determinada, “rizomas sempre produzem a diferença, pois à medida que crescem também escapam, confundem, fazem tantas novas conexões que seu começo e fim se perdem em inúmeras linhas de intensidade” (Viana, 2021, p. 274). O conceito de rizoma, trazido por Luís Antonio Barone, nos ajuda a olhar para a trajetória da Rede de Estudos Rurais a partir das inúmeras conexões que vem construindo ao longo de 20 anos. Aproximando diferentes pessoas e gerações, de diferentes territórios e espaços de atuação, com modos diversos de olhar e interpretar o mundo, a Rede segue em movimento procurando se reinventar sem se desvincular de suas origens. A experiência coletiva de produzir conhecimento faz desse coletivo capaz de ser, ao mesmo tempo, espaço de fortalecimento de vínculos e de criação de novos horizontes para os estudos rurais no Brasil.
Referências:
VIANA, Wesley Magalhães. Rizoma em Deleuze e Guattari. Revista Lampejo, Fortaleza, v. 10, n. 1, p. 273-278, ago. 2021. Disponível em: https://revistalampejo.org/index.php/lampejo/pt_BR/article/view/393. Acesso em: 1 ago. 2026.