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A pesquisa como veículo de ressonância do chamado da terra

A pesquisa como veículo de ressonância do chamado da terra 1

A partir da antropologia política e da etnografia, Janaína Betto analisa como mulheres indígenas transformam a relação com a terra em potência política.

Por Julia Saggioratto, assessora de comunicação da Rede de Estudos Rurais.

No norte do Rio Grande do Sul, onde disputas por terra atravessam gerações, a memória, marcada pela colonização, demarca um embate entre agricultores e indígenas por terra e soberania. A disputa, promovida pela ação do Estado, sustenta um território de tensão que abre brechas para pensarmos sobre o que diferentes formas de resistência indígena podem produzir. Ao acompanhar a 1ª Marcha das Mulheres Indígenas em Brasília, em 2019, a pesquisadora Janaína Betto observou que do confronto e da resistência também florescem outras formas de fazer política e conhecimento. Entre Rios do Sul, no norte do Rio Grande do Sul, é a cidade de origem de Janaína, região de forte presença do povo Kaingang. A pesquisadora é formada em Engenharia Florestal, com mestrado e doutorado em Extensão Rural, pós-doutoranda em Ciências Sociais e graduanda, também em Ciências Sociais Bacharelado, pela Universidade Federal de Santa Maria. Ela ainda atua como tutora de políticas públicas para comunidades quilombolas em um Termo de Execução Descentralizada (TED) entre a UFSM e o INCRA do Rio Grande do Sul.

O contexto de vida de Janaína é marcado pelo sindicalismo rural, a partir de seu avô, assim como pela discussão trazida por seu pai sobre a agricultura ecológica e sobre a Reforma Agrária, além da presença indígena nas retomadas dos territórios no entorno de Entre Rios do Sul. A luta pela terra atravessou a trajetória de Janaína desde cedo, assim como em suas pesquisas que também a tiveram como foco, junto às discussões sobre os movimentos sociais e questões de gênero. No doutorado a pesquisadora se aproximou da sociologia rural e com a diversidade de sujeitos do mundo rural, numa concepção diferente daquela clássica do que seria o campesinato. “Se convencionou nomear de novos sujeitos, novas identidades, no que tange ao estabelecimento de uma identidade política, embora diga respeito a grupos sociais que sempre estiveram no rural, indígenas, quilombolas, ribeirinhos, que sempre lutaram, talvez não dentro do que as chaves analíticas mais clássicas convencionam como política, mas também sempre resistiram a seus modos”, comenta Betto.

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2ª Marcha (2021) -Faixa da delegação das mulheres Guarani e Kaiowá (Foto: Janaína Betto)

O tema da 1ª Marcha das Mulheres Indígenas, “Território: nosso corpo, nosso espírito”, fortaleceu em Janaína o interesse que tinha por compreender a relação das mulheres com a terra e como isso incide no meio político. A influência da antropologia e da etnografia, fortalecida a partir da relação com a Prof. Dra. Rosana Pinheiro Machado (University College Dublin), a levou a viver a primeira imersão em contato com a luta indígena participando da Marcha, a fazendo perceber que aquele era mais do que um evento político convencional. “Tinham, sim, reuniões, assembleias, audiências e plenárias, mas tinha também, de maneira muito significativa, a presença do canto, da dança, dos rituais e postos [sic] com tanta importância quanto os outros momentos”, relembra. A diversidade de povos e de atividades acontecendo ao mesmo tempo naquele espaço surpreendeu a pesquisadora, que, logo de cara, percebeu que precisaria ampliar seu conceito de política para dar conta de pesquisar a partir de tamanha complexidade.

Para isso, a jovem pesquisadora passou a trabalhar com a antropologia política, pensando a política a partir de uma ideia de resistência como criação e não apenas como reação ao que está posto enquanto sociedade. O olhar para o movimento indígena enquanto conexão das lutas do presente e do passado, de lutas ancestrais, de uma resistência histórica que cria, continuamente, a vida. “Os sujeitos vão, nos seus cotidianos, lançando mão de diferentes estratégias para ser possível fazer a manutenção da sua vida, dos seus modos de vida, dentro daquilo que é possível em cada momento. Então isso traz a ideia de política a partir da criação de novos possíveis. E aí foi o que consolidou de vez a ideia de trabalhar com a etnografia”, comenta.

Para isso Janaína apostou no diálogo, abordando quem estava na atividade, observando, escutando, se deixando afetar para compreender o que a mobilizava enquanto pesquisadora. O “chamado da terra” foi um dos conceitos que a pesquisadora passou a analisar pois, segundo ela, se há um chamado, como é possível escutá-lo? Quem são essas  mulheres que se colocam na posição de escuta, que se mobilizam e organizam um evento nas proporções da Marcha das Mulheres Indígenas para falar sobre este chamado da terra? O método inicial e principal da pesquisa de Janaína foi a imersão em campo, a escuta e o diálogo para produzir teoria etnográfica, o que resultou em dois grandes resultados da tese intitulada: “Presença, chamado, reflorestar: criações políticas da marcha das mulheres indígenas”.

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4ª Marcha (2025) – integração internacional (Foto: Janaína Betto)

Canto, dança, resistência: a política que floresce no conflito

O primeiro desdobramento das análises da pesquisa Janaína chamou de “Forma Marcha”, o modo de ação política singular e próprio das mulheres indígenas que se traduz em grandes festas indígenas com o canto, a dança, a alegria, as trocas, nas ruas e no acampamento, que possuem correspondência com modos de vida comunitário dos povos indígenas. Ao mesmo tempo, se revela como guerra, contra os vetores de morte e de extermínio indígena que, àquela época, vinham a partir do Estado, por exemplo. “E é interessante notar que essa chave dual, desenvolvida por Beatriz Perrone-Moisés, não é estável, ela muda conforme o contexto. Então o que era lá em 2021 não vai ser a mesma coisa em 2023, num cenário em que muitas dessas mulheres estão compondo junto com o governo. Então vai sempre mudando, é sempre circunstancial”, destaca a pesquisadora.

O aspecto corpóreo da luta também foi pontuado por Janaína, sobre corpos de mulheres indígenas que ocupam o espaço público, ocupam as ruas e, ao se movimentarem com o canto, a dança e os rituais, trazem a presença da ancestralidade, da terra e do cuidado para a Marcha. Uma característica importante enfatizada por Betto é a capacidade de consolidação do movimento em rede, da organização coletiva indígena. Ela menciona a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), criada pelo movimento indígena no Acampamento Terra Livre de 2005, assim como a Articulação Nacional das Mulheres Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), uma grande articulação de mulheres indígenas de todos os  biomas do Brasil. “Um espaço de centralização organizativa, mas sem a centralização do poder, porque o poder continua estando nesse espaço dessa coletividade, que é o que dá ou não a legitimidade à organização”, menciona Janaína.

Ainda segundo ela, os conceitos utilizados na tese a partir da observação e da escuta em campo não se tratam de “frases vazias”. Ela menciona que as palavras utilizadas na pesquisa foram buscadas no campo, a partir do que acontecia, do potencial de inventividade da Marcha, que abre possibilidades para nos fazer imaginar outras relações possíveis com a terra. “Essas mulheres que se colocam como mediadoras entre a terra e a arena política, […] pegam os séculos de tentativa de difamar mulheres as colocando como mais próximas da natureza, que é algo que nós, mulheres, pesquisadoras, feministas, estamos sempre lutando para desconstruir, elas subvertem essa lógica”, ressalta Janaína. Ela menciona, ainda, que, ao reavivar a relação com a terra, as mulheres indígenas subvertem uma lógica de exploração da terra imposta pela estrutura capitalista. Essa ação se converte em um ato de reparação e de inventividade política, evidenciando que os conhecimentos ancestrais femininos indígenas podem garantir o futuro da vida no planeta. “Elas reivindicam essa relação delas com a terra como potencial político e transformam em uma proposta para pensar saídas para as crises que a gente vive hoje”, ressalta.

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3ª Marcha (2023) – Cristiane Pankararu, uma das interlocutoras da tese (Foto: Janaína Betto)

Convergência de saberes e reconhecimento acadêmico

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Janaína Betto recebe o prêmio Maria de Nazareth Baudel Wanderley (Foto: Arquivo Pessoal)

A decisão de Janaína ao mudar os rumos de sua trajetória enquanto pesquisadora, partindo dos estudos dentro da sociologia rural e se direcionando ao diálogo com a antropologia e a etnografia, não foi fácil. Segundo ela, a decisão, apesar de se configurar como um risco para a consolidação de sua trajetória, foi guiada por temas que a mobilizaram em um momento de acirramento político nacional. Apesar das incertezas, assumir esse risco revelou-se uma decisão acertada. 

A tese de doutorado de Janaína, orientada pelo professor Marcos Botton Piccin (UFSM) e coorientada pela professora Luiza Dias Flores (UFAM), recebeu o Prêmio Maria de Nazareth Baudel Wanderley pela melhor tese de doutorado defendida em Programas de Pós-Graduação vinculados à área de Ciências Humanas e Interdisciplinares no ano de 2023. O Prêmio, concedido a Janaína durante o 10º Encontro da Rede de Estudos Rurais, foi criado em 2016 e contempla trabalhos em que a temática central da pesquisa seja relacionada ao mundo rural brasileiro. A premiação tem como objetivo reconhecer e ampliar o acesso à produção científica, assim como incentivar a produção de teses nos Centros Nacionais de Pesquisas e Pós-Graduação do País e Instituições de Ensino Superior. Maria de Nazareth Baudel Wanderley é homenageada ao dar nome à premiação, em reconhecimento à sua trajetória como professora, pesquisadora e como uma das idealizadoras e sócia-fundadoras da Rede de Estudos Rurais. Saiba mais sobre o prêmio e sobre a trajetória de Maria de Nazareth aqui.

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Janaína Betto recebe o prêmio Maria de Nazareth Baudel Wanderley (Foto: Arquivo Pessoal)

Segundo Janaína, a escrita da tese constituiu um processo prazeroso, fortalecendo sua motivação para escrever. “Eu me encontrei enquanto pesquisadora escrevendo a tese, eu encontrei as perspectivas teóricas que eu me afilio, que fazem sentido pra mim e também os públicos com os quais eu gosto de trabalhar. Então o momento que veio a premiação, era algo que eu não esperava, porque eu entendia a importância da minha pesquisa, mas entendia que era um tema, talvez, minoritário dentro do que costuma-se trabalhar nos estudos rurais. […] Como pesquisadora, fiquei muito feliz pelo reconhecimento de toda a dedicação que eu coloquei nessa tese”, destaca a pesquisadora. Para além disso, ela menciona a importância de trabalhar o tema de forma inter e multidisciplinar junto à Rede de Estudos Rurais, fomentando o diálogo entre a sociologia rural, a antropologia política e a etnografia dentro dos limites possíveis desta mediação de conhecimentos. “Eu vejo como um avanço a gente poder estar reconhecendo esses outros públicos que também fazem parte do rural brasileiro, […] que também convidam a gente a repensar nossas formulações, a própria questão da terra, muitas vezes vista como meio de produção pelo capital ou por meio de reprodução, e elas vêm e colocam a terra como uma agência, como um sujeito também que compõe a política”, ressalta.

Ela menciona que este processo de convergência de saberes nos ensina sobre como avançar em um cenário mundial de emergência climática, assim como evidencia a necessidade de olhar para a dimensão racial dentro da questão agrária com mais centralidade. Atualmente, no pós-doutorado, Janaína se dedica a aprofundar reflexões sobre a Marcha procurando olhar para as mudanças no contexto institucional da política, com a aproximação de mulheres indígenas na composição do governo e a construção de novas ferramentas, como espaços de testemunho durante o evento da Marcha.

Betto pretende seguir com seu olhar voltado à relação feminina com a terra a partir das singularidades que emergem desses modos de vida e de luta que nos ajudam a pensar saídas às diversas crises que vivenciamos enquanto sociedade. Ela menciona que o reconhecimento do poder e do protagonismo das mulheres indígenas reorganizou o próprio Movimento Indígena em meio a um cenário de enfrentamento a fortes investidas anti-indígenas. Janaína finaliza frisando que a Marcha nos permite refletir sobre o quanto a presença do corpo, da terra, da ancestralidade e do cuidado enquanto proposta política pode contribuir para nossa formação e organização enquanto sociedade. 

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