Sessão realizada durante a XVI IRSA e a 64ª SOBER recuperou marcos da trajetória da Rede, da criação aos processos de descentralização regional e apontou perspectivas para o futuro do coletivo.
É possível construir um espaço que, ao mesmo tempo, abre diálogo para o novo e se mantém agarrado às raízes que o originaram? Com 20 anos de caminhada, a Rede de Estudos Rurais vem provando que sim, é possível, sem esquecer que existem inúmeros desafios, mas, também, sem se resignar. A Rede tem ultrapassado gerações de pesquisadores e pesquisadoras das mais diversas áreas de atuação, regiões do país e olhares sensíveis para a realidade agrária brasileira.
No dia 22 de julho, a trajetória da Rede de Estudos Rurais foi tema da Sessão Organizada “20 Anos da Rede de Estudos Rurais: trajetória, contribuições e perspectivas”, como parte da programação da XVI IRSA e 64ª SOBER. A SORG teve a participação de Leticia Chechi, atual primeira secretária da diretoria da Rede, Ramonildes Alves Gomes, Luis Antonio Barone e Everton Lazzaretti Picolotto. O momento oportunizou uma retrospectiva sobre a Rede que destacou a importância do Projeto de Intercâmbio de Pesquisa Social em Agricultura (PIPSA) para a construção da Rede, a qual foi se desenvolvendo a partir de uma grande representatividade de mulheres na liderança.
Ramonildes Alves Gomes, professora da Universidade Federal de Campina Grande, na Paraíba, e também professora do programa de pós-graduação em Ciências Sociais da UFCG, que já esteve à frente da diretoria da Rede de Estudos Rurais na gestão 2019-2021, a descreve como “um espaço fértil e generativo de discussões acadêmicas alinhadas ao que nós denominamos de ciência cidadã e pública”. A pesquisadora considera que algo marcante na construção desse coletivo é o elemento da cidadania, dado que a trajetória da Rede no entorno das discussões acerca dos Estudos Rurais se desenvolveu a partir de um olhar amplo, inclusivo e diverso. Segundo ela, a Rede tem dedicado sua atenção a temas relacionados a agricultores familiares, camponeses, ribeirinhos, populações tradicionais, indígenas, assentados da reforma agrária, pescadores artesanais e agronegócio. O debate e as agendas de pesquisa sempre estiveram voltadas à problematizar os dilemas e lacunas que afetam a vida desses grupos, e foi por esse caminho que o coletivo da Rede construiu seus princípios, embasados na inter e multidisciplinariedade, na diversidade regional, geracional, de gênero e étnico-racial, a partir de diferentes graus de formação. “Seus pesquisadores são graduandos, pós-graduandos, doutores reconhecidos, doutores seniores e pós-doutores. Não menos importante, a sociedade civil, movimentos sociais, ONGs e sem esquecer a necessidade sempre presente de dialogar com gestores públicos para construir, qualificar e fertilizar os dispositivos que embasam as políticas públicas em diferentes escalas”, destaca.

Para Luis Antonio Barone, professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP), a Rede surgiu a partir de uma necessidade de expressão de um grupo de pesquisadores e pesquisadoras que possuíam uma perspectiva crítica orientada pela sociologia rural. De acordo com ele, os temas abordados pela Rede, mencionados anteriormente por Ramonildes, são indicadores de um posicionamento contra-hegemônico diante da realidade agrária brasileira. Para além disso, ele destaca que um aspecto fundamental da Rede é a estrutura horizontal na organização e nas relações construídas, o que se vincula, segundo ele, a um processo de criação constante e uma trajetória de capacidade de diálogo e abertura. “[A Rede] é fruto da experiência e da sabedoria desses fundadores, uma geração que se formou e consolidou sua carreira no período da abertura democrática, desde o final dos anos 70, e que foi um aprendizado de convivência”, ressalta.
Quando o primeiro Encontro da Rede aconteceu, em 2006, Everton Lazzaretti Picolotto, professor da Universidade Federal de Santa Maria, era estudante e participava desse momento. Ele comenta que considera esse espaço como capaz de promover oportunidades para estudantes e profissionais, possibilitando a circulação e o reconhecimento de suas produções científicas. O professor destaca que, desde sua origem, a Rede se propõe a produzir e divulgar o conhecimento “para além dos muros da universidade”, de modo a se conectar com movimentos sociais e organizações populares. Éverton ressalta, ainda, o papel da Rede como interlocutora com outros espaços geradores de conhecimento e representação institucional.
A discussão realizada durante a Sessão Organizada possibilitou a construção de uma linha do tempo destacando períodos que estruturaram as diretorias da Rede de forma a entrelaçar as diferentes regiões do país. O período de 2010 a 2012 foi mencionado como momento de expansão e maior descentralização das representações, inserindo oficialmente a região Norte no secretariado e na coordenação nacional. Entre 2017 e 2018 aconteceu a transição e o equilíbrio geográfico como característica marcante do período, ao mesclar pesquisadores de universidades do centro e das periferias do país, consolidando um processo de interiorização da Rede. O período de 2019 a 2021, contexto de pandemia, foi descrito como extremamente desafiador, já que a gestão que se configurava geralmente como bianual precisou permanecer por três anos lidando com as dificuldades associadas ao contexto de emergência mundial. Apesar disso, o engajamento e participação nas atividades remotas se manteve, principalmente pela região Centro-Oeste, que até aquele momento se configurava como um desafio para inclusão na Rede.
Os anos de 2024 e 2025 também foram caracterizados como desafiadores pois se tratou de um momento de transição no Governo Federal, marcando o período pela reconstrução e o esforço pela garantia de recursos. Nessa gestão a liderança migrou, pela primeira vez, para o Centro-Oeste, e na gestão atual, de 2026 e 2027, se concretiza, de fato, o objetivo idealizado desde a criação da Rede. Para a pesquisadora Ramonildes esse período foi “a materialização de um sonho em termos dessa diversidade regional, porque agora nós temos uma diretoria finalmente composta pela presença do Sudeste, Sul, Norte, Centro-Oeste e Nordeste”, ressalta.

Para além disso, os pesquisadores salientaram o empenho que o coletivo da Rede realiza desde o princípio para diversificar os locais de realização dos encontros. De acordo com ela, o espírito da Rede é fortalecer as alianças nos lugares onde é preciso marcar presença e promover a participação de diferentes pesquisadores/as. Ainda nesse contexto, outra particularidade da Rede que merece destaque é a distribuição histórica de áreas temáticas presentes. Desde as Ciências Humanas e Sociais compondo cerca de 50% do quadro de associados/as e pesquisadores/as a partir da Sociologia, Ciência Política, História a Antropologia, esses focados na reprodução social, em políticas públicas, em discussões sobre cultura e movimentos sociais no campo. As discussões possuem, também, uma presença crescente das áreas da Geociência, Geografia, Ecologia e no Planejamento Urbano e Rural, voltados, especialmente, para análises geoespaciais, mudanças climáticas, extensão rural e o uso da água. Ainda conta com a atuação de pesquisadores/as das Ciências Agrárias e de Extensão, com a Agronomia, Engenharia Florestal, Medicina Veterinária e Zootecnia, orientados principalmente para temas como transição agroecológica, sistemas de cultivo e modos de vida de camponeses. Por fim, é importante mencionar a presença de áreas da Sociopolítica, com profissionais do Direito, das Relações Internacionais, Serviço Social, Comunicação e Economia, se dedicando a temas sobre direito agrário, de comunidades e de povos tradicionais, por exemplo.
Sobre o futuro, o professor Éverton menciona que a internacionalização do trabalho realizado pela Rede é uma empreitada à qual esse grupo deve avançar em seus próximos passos. Já para Ramonildes as comemorações dos 20 anos da Rede de Estudos Rurais têm sido motivação para reflexões sobre quais caminhos é preciso trilhar para fortalecer esse espaço e manter, segundo ela, o aspecto da decolonialidade nas discussões e o esforço por uma pesquisa pública e cidadã. O fato é que 20 anos foram tempo suficiente para construir um espaço que reúne pessoas, conecta diferentes realidades e produz conhecimento. No entanto, ainda não é suficiente para a quantidade de intenção e propósito que as inúmeras pessoas que foram alcançadas pela Rede colocam nesse espaço.