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CPDA chega aos 50 anos fortalecendo redes e formando gerações de pesquisadores

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Atividade de 30 anos do CPDA (Foto: Comissão Organizadora 30 anos do CPDA)

Criado em 1976, o CPDA consolidou-se como uma das principais referências latino-americanas nos estudos sobre desenvolvimento, agricultura e sociedade. Agora, ao celebrar seus 50 anos, o Programa reúne diferentes gerações de egressos para revisitar sua história e projetar os desafios do futuro.

Por Julia Saggioratto, assessora de comunicação da Rede de Estudos Rurais.

Aprender é um processo coletivo. Mais do que a transmissão de conteúdos, a construção do conhecimento depende do diálogo, da escuta e do encontro entre diferentes sujeitos. No Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade da UFRRJ, o conhecido CPDA, que esse ano comemora 50 anos de caminhada, essa compreensão faz parte da identidade do Programa e ajuda a explicar por que os vínculos construídos entre estudantes, docentes e pesquisadores permanecem vivos mesmo décadas após a conclusão da formação. Silvia Zimmermann, professora na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), fez sua graduação em Agronomia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e mestrado, doutorado e pós-doutorado no CPDA. Nesse espaço ela buscou discutir os temas relacionados às políticas públicas e ao abastecimento e segurança alimentar e nutricional, uma das áreas em que o CPDA tem especialidades e é reconhecido nacional e internacionalmente. A pesquisadora também atuou por dez anos na Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA), em Foz do Iguaçu.

Há dois anos, Silvia atua como professora no CPDA com o tema Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade e está à frente da organização de atividades comemorativas dos 50 anos do programa, realizados agora no ano de 2026, considerando sua trajetória marcada pelo retorno à casa, como ela menciona. “Nas comemorações dos 30 anos, eu estava cursando o programa. Nas comemorações de 40 anos, eu estava fora da instituição, mas auxiliava na organização das atividades comemorativas. E agora, nos 50 anos, eu sou coordenadora desta comissão organizadora das atividades comemorativas, então está sendo bem especial”, destaca.

Silvia também é coordenadora da Rede de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede PENSSAN) e conselheira no Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), além de se manter vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas e Desenvolvimento na UNILA.

O CPDA foi criado em 1976 como Centro de Pós-graduação em Desenvolvimento e Agricultura, vinculado à Escola Interamericana de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (EIAP/FGV). Posteriormente, no ano de 1982, o curso foi transferido juntamente com o seu corpo de docentes, funcionários e alunos à UFRRJ, passando a integrar o antigo Departamento de Letras e Ciências Sociais, onde funcionou em diversos locais, até estruturar sua sede na Presidente Vargas.

O curso de Mestrado iniciou-se em 1977, e em 1995 foi criado o Doutorado. O CPDA recebe estudantes de diversas formações acadêmicas como Ciências Sociais, Economia, História, Geografia, Economia e Agronomia, oriundos de todas as regiões brasileiras, de diversos países latino-americanos e de países africanos.

Em 2004, as antigas Áreas de Concentração do Programa foram extintas com a reorganização das Linhas de Pesquisa, adequando-o ao campo das Ciências Sociais com uma abordagem interdisciplinar. Neste momento o nome foi alterado para Programa de Pós-graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, denominação aprovada, posteriormente, pela Capes em 2006, mantendo, no entanto, a sigla CPDA, que já era tida como referência nacional e internacional. Atualmente, os docentes do CPDA integram um departamento específico, o Departamento de Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (DDAS), e além de ministrarem aulas para o curso de pós-graduação do CPDA, ministram aulas para o curso de graduação em Relações Internacionais e para os cursos das Ciências Agrárias da UFRRJ.

O Programa participa, desde sua origem, de diversos intercâmbios de  pesquisa nacionais e internacionais, tendo como exemplo o Projeto de Intercâmbio de Pesquisa Social em Agricultura (Pipsa), o que também influenciou ter sido escolhido pela FAO/ONU, em 1987, para ser a sede regional do Mestrado em Planejamento e Políticas de Desenvolvimento Agrícola e Rural para América Latina e Caribe.

O CPDA edita desde 1993, a revista quadrimestral Estudos Sociedade e Agricultura, e desde 2017, em parceira com Redibec (Red Iberoamericana de Economía Ecológica), a Revibec – Revista Iberoamericana de Economía Ecológica. Além disso, os discentes do CPDA editam, desde 2007, a revista IDeAS – Interfaces em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, um periódico científico de revisão por pares, acesso livre e publicação contínua de artigos em português, espanhol e inglês. Com uma trajetória de 50 anos não é possível detalhar, nesta matéria, todos os espaços ocupados e discussões realizadas pelo Programa. Veja mais dessa história no site.

De acordo com Silvia, o CPDA tem como característica marcante a formação de profissionais que possuíam vínculos com o Ministério de Agricultura e órgãos estaduais, por esse motivo, surge com o propósito de formar profissionais com atuação direta nas políticas públicas, conectados com diversos contextos sociais para além da academia. “Isso é muito rico para o programa porque são pessoas que têm experiência no planejamento e execução de políticas públicas, com as dinâmicas sociais atuais e os desafios que se colocam nessa relação da produção alimentar, nos conflitos de reconhecimento de territórios, das políticas de reforma agrária, ou da debilidade sobre essas políticas”, ressalta a professora.

Hoje em dia o Programa é reconhecido nacional e internacionalmente, em destaque no contexto latino-americano, por formar profissionais que atuam tanto no campo acadêmico, em diversas Universidades públicas e privadas, quanto em institutos de pesquisa, assim como em órgãos de governo tanto na esfera federal quanto na estadual e municipal. De acordo com Silvia, o CPDA se tornou referência pelo recorte realizado nas produções acadêmicas sobre o papel do rural no contexto contemporâneo, levando em consideração sua diversidade, os conflitos que se expressam nesse meio como em relação à Reforma Agrária, o conceito de agricultura familiar, a exploração do meio ambiente, as políticas públicas e a relação do rural com o urbano, considerando, também, as realidades locais. “São aspectos muito positivos pensar que esses profissionais que estão nesses diversos locais tenham tido um momento da sua formação acadêmica de reflexão, de problematização, do significado do rural e das ruralidades e de como isso pode se expressar em cada território em que eles estão trabalhando. Porque, apesar do CPDA estar localizado no Rio de Janeiro, ao longo de toda essa trajetória, ele recebeu profissionais do Brasil inteiro para fazer essa formação. E esses profissionais também voltaram para suas regiões ou foram para outras regiões”, ressalta.

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Atividade de 30 anos do CPDA (Foto: Comissão Organizadora 30 anos do CPDA)

O conhecimento que nasce dos vínculos

Ao ser questionada sobre qual característica do CPDA Silvia considera importante e que o torna capaz de atingir tantos lugares e pessoas, ela foi convicta em reportar-se ao lugar que o vínculo e a solidariedade ocupam no Programa. Ela comenta que percebeu, ao longo de sua caminhada, um caráter dialógico nas relações construídas entre professores e estudantes. Segundo ela, para além da preocupação com o conteúdo ou com a abordagem teórica, existe uma atenção à forma como as relações se dão, para que sejam construídas de uma maneira menos verticalizada, de respeito e que configurem, de fato, uma relação de conhecimentos. “O estímulo aos vínculos entre os estudantes, de se fortalecer ao invés de competir”, é um aspecto fundamental do Programa que faz com que os  egressos queiram voltar para comemorar a trajetória do CPDA e poder reencontrar os amigos que fizeram nesse espaço. “A gente teve desdobramentos na vida das pessoas, mas aquele vínculo se constituiu ali, ele permanece. Então eu acho que esse é um grande diferencial da instituição, no sentido de que conhecimento se constrói num processo duplo, já dizia Paulo Freire, numa troca”, destaca Silvia.

Por ser uma caminhada, por vezes, solitária, o vínculo e o afeto na Pós-graduação se tornam fundamentais, também, no sentido de tornar esse momento de aprofundamento do conhecimento mais leve. É um momento de dificuldades na constituição de um profissional acadêmico e o estabelecimento de vínculos afetivos faz com que não seja um período lembrado pelo isolamento e competitividade. Silvia salienta que procura manter essa característica na cultura do Programa, que corrobora a relação de respeito e o reconhecimento que o CPDA possui. “A preocupação é a gente manter essa energia, sabe? Vai mudar, está mudando, a gente está atualizando o debate dos eixos temáticos do CPDA, até para reconhecer esse perfil novo dos professores que entraram. Mas tem uma preocupação de manter essa dinâmica de construção do conhecimento, que eu acho que é o diferencial. Mas, como eu te falei, eu sou meio suspeita, né, então…”, destaca Silvia que, mesmo após anos atuando em outras frentes, sente que nunca saiu dessa casa.

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Atividade de 40 anos do CPDA (Foto: Comissão Organizadora 40 anos do CPDA)

Quando os encontros se transformaram em Rede

O CPDA também se constituiu como um importante espaço de idealização da Rede de Estudos Rurais. Pesquisadoras fundadoras da Rede como Maria de Nazareth Baudel Wanderley, Leonilde de Medeiros, Sônia Bergamasco, Ângela Damasceno e Vera Botta estiveram nesse espaço realizando discussões e articulando um grupo de pesquisadores da Sociologia Rural. No ano de 1979, final da Ditadura Militar no Brasil, Leonilde de Medeiros coordenou, como professora do CPDA, o Projeto de Intercâmbio de Pesquisa Social em Agricultura (PIPSA), financiado pela Fundação Ford, o qual tinha como objetivo colocar os pesquisadores em contato, já que naquele momento se encontravam bastante isolados. Com o fim do projeto, ainda havia muitas pessoas que reconheciam a importância do grupo, dos encontros, da troca de ideias, de questionamentos empíricos e teóricos que os encontros provocavam. 

No final da década de 1990, após outras tentativas de construir um grupo, foi criada uma Rede de Estudos Rurais que foi se estruturando durante encontros da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) com pesquisadores dos temas rurais. Leonilde Servolo de Medeiros, que permanece como professora titular no CPDA, coordenando o Núcleo de Pesquisa, Documentação e Referência sobre Movimentos Sociais e Política Públicas no Campo, além de membro do Observatório de Políticas Públicas para a Agricultura (Oppa) da mesma instituição, menciona a participação de outros professores no processo de desenvolvimento da Rede, como o professor Roberto Moreira, pesquisador fundamental na consolidação do Programa como referência nacional e internacional, que compôs a primeira direção da Rede. 

Nesse contexto, incomodadas com a restrição nos espaços, sobretudo acadêmicos e científicos que os estudos rurais passavam particularmente no Brasil, as matriarcas da Rede aproveitaram os momentos em que se encontravam para pensar em como criar um espaço de discussão para pesquisadores comprometidos com os estudos rurais para além dos espaços acadêmicos. Essa articulação culminou no primeiro encontro da Rede de Estudos Rurais em 2006, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, RJ.  Leonilde destaca ainda que o CPDA disponibilizou seu endereço para a primeira sede e ainda abriga o arquivo físico da Rede. “Ao longo desse tempo o CPDA, não enquanto uma instituição, mas principalmente através dos seus professores, tem apoiado das mais diferentes maneiras a continuidade da Rede, estimulando os colegas a participarem, chamando a atenção dos alunos para a importância da participação na Rede de Estudos Rurais. Vários de nós, ao longo desses anos, coordenamos, também, grupos de trabalho na rede”, ressalta a professora.

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Atividade de 40 anos do CPDA (Foto: Comissão Organizadora 40 anos do CPDA)

Egressos que levam o CPDA para diferentes territórios

Cerca de 600 mestres e 300 doutores se formaram no CPDA. Segundo Silvia Zimmermann, nos aniversários de 30 e 40 anos do Programa foram feitos mapeamentos de egressos. Neste ano, na comemoração de 50 anos, uma das tarefas da comissão organizadora das atividades é realizar um novo mapeamento para atualizar essa pesquisa e conhecer o perfil desses profissionais que atuam em diferentes locais, como em Ministérios, instituições de ensino, órgãos de extensão rural, entre outros. “Muitos estão espalhados pelo cenário nacional, em diferentes instituições, e esses debates que eles tiveram contato no CPDA, as formações que eles tiveram no CPDA, muitos também levaram para essas instituições e abriram novas fronteiras de debate, de conhecimento sobre o tema da sociologia rural”, menciona Silvia.

Uma das egressas do CPDA, Andréa Simone Renthe Leão, faz parte equipe organizadora dos 50 anos do Programa, na comissão que vem realizando o mapeamento de egressos, é economista e professora na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), no Instituto de Ciências da Sociedade, atuando nos cursos de graduação em Economia, Administração, Gestão Pública, Turismo, no Mestrado em Ciências da Sociedade e no programa profissional em Rede de Administração Pública.

De acordo com Andréa, o CPDA foi fundamental para diversificar suas áreas de conhecimento no campo multidisciplinar. Enquanto economista, ela teve a oportunidade de estudar  outras áreas, como Geografia, Antropologia, Ciências Sociais e História, por exemplo, o que contribuiu para seu processo como pesquisadora, professora e extensionista para trabalhar, também, a interdisciplinaridade, o que, segundo ela, é de fundamental importância na atuação em uma universidade no coração da Amazônia que tem na sua origem uma lógica interdisciplinar.

A pesquisadora também participou da organização das festividades de 30 anos do CPDA no levantamento dos egressos. Ela menciona que esse processo foi muito valioso, já que pôde contribuir para que esse registro fosse preservado, incentivando a participação dos egressos e fortalecendo o vínculo entre os ex-alunos e o programa. Andréa destaca que é de suma importância que todos os egressos respondam ao formulário para conhecer suas caminhadas e saber onde estão atualmente, a fim de compreender como o CPDA marcou as trajetórias enquanto estudantes e, posteriormente, na atuação profissional. “O CPDA continua fazendo parte da minha vida e é sempre muito bom estar reencontrando amigos, professores, reencontrando pessoas que estão nucleadas e trabalhando em forma de rede em pesquisas dentro desse Brasilzão e principalmente dentro da área em que eu atuo, que é a Amazônia”, finaliza a pesquisadora.

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Atividade de 30 anos do CPDA (Foto: Comissão Organizadora 30 anos do CPDA)

Outro egresso do CPDA, atualmente vice-reitor da UFRRJ, César Augusto da Ros, fez parte da gestão 2009-2010 da diretoria da Rede de Estudos Rurais, comenta que o CPDA foi responsável pela formação de inúmeras gerações de pesquisadores/as, oriundos de diversas áreas do conhecimento e regiões do Brasil, da América Latina e de outros países do mundo. Segundo ele, o Programa se tornou uma espécie de “cadinho intelectual”, no qual o mundo rural foi analisado e interpretado sob diferentes perspectivas teóricas e metodológicas.

Ele destaca a presença dos egressos nos diversos ambientes de atuação profissional, como movimentos sociais, organizações não governamentais, órgãos governamentais, instituições de pesquisa e universidades, entre outros. “Por meio de um olhar diferenciado prestam uma contribuição inestimável na construção de novos conhecimentos sobre o mundo rural contemporâneo, assim como nos processos de organização social, implementação, avaliação e monitoramento de políticas públicas”, ressalta.

Em dezembro deste ano, nos dias 2, 3 e 4, será realizado o seminário internacional “CPDA 50 anos (1976-2026): Contribuições Analíticas e Desafios Contemporâneos”. O evento, que acontecerá no Rio de Janeiro, terá o objetivo de demarcar essa data histórica e promover reflexões dos diversos pesquisadores sobre as contribuições do CPDA ao longo de suas trajetórias. Além disso, em agosto será realizado um seminário sobre as Ciências Sociais com foco nos estudos rurais na América  Latina, contando com a participação de pesquisadores de diversos países latinos.

Ademais, para o segundo semestre deste ano, tem sido organizada uma disciplina para abordar a trajetória das temáticas rurais a partir da experiência do CPDA, além de outras atividades que têm sido organizadas para registrar os 50 anos do Programa. Em breve será divulgada a programação completa, mas o que se pode afirmar é que haverá uma grande festa para fechar esse momento de partilha e de encontro, o que, para Silvia, faz parte da consolidação dos vínculos que essa experiência promoveu. “Eu particularmente gosto tanto de ter a profundidade acadêmica quanto de fazer festa”, brinca Silvia. A frase sintetiza o espírito das comemorações dos 50 anos: celebrar uma trajetória construída pelo conhecimento, pelos encontros e pelos vínculos que continuam unindo diferentes gerações do CPDA.

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