Experiências premiadas do Projeto Jandaíras e da Marcha das Margaridas evidenciam como a produção coletiva de conhecimento, a participação política e a organização das mulheres do campo, das águas e das florestas contribuem para a construção de políticas públicas.
Por Julia Saggioratto, assessora de comunicação da Rede de Estudos Rurais.
O Prêmio Margarida Alves é uma homenagem a Margarida Maria Alves (1943-1983), uma dirigente sindical que rompeu com padrões tradicionais de gênero e foi uma grande lutadora pelos direitos da população rural. A premiação foi retomada pelo MDA após 10 anos da realização da última edição, sob o título: “5º Prêmio Margarida Alves de Estudos sobre Ruralidades e Feminismos: experiências e saberes na construção de territórios feministas”.

A premiação valorizou pesquisas nas quais a construção do conhecimento se dá a partir do contato, do diálogo e da ação coletiva. Pesquisas que mostram que as ideias de Paulo Freire também se aplicam na construção de políticas públicas quando realizadas de forma democrática e participativa (Lopes Barbosa; Ferreira Gonçalves; Alves Rodrigues, 2024). Dentre os estudos premiados está o Projeto Jandaíras, iniciado em 2023 a partir da parceria entre a Universidade Federal Rural de Pernambuco e o Ministério do Desenvolvimento Agrário, por meio da Secretaria de Territórios e Sistemas Produtivos Quilombolas e Tradicionais (SETEQ). Trata-se de uma iniciativa criada para fortalecer grupos produtivos de mulheres, juventudes e povos e comunidades tradicionais no Nordeste. Este projeto conta com formação, recursos de fomento e apoio ao acesso a mercados e políticas públicas, incluindo o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Cadastro Nacional da Agricultura Familiar (CAF), instrumentos do Governo Federal para fortalecer a produção rural, a segurança alimentar e gerar renda no campo. A execução envolveu a Universidade Federal Rural de Pernambuco, Unilab e Universidade Federal do Piauí, com a coordenação do Núcleo Jurema na UFRPE.

Já na primeira etapa o Projeto reuniu 37 grupos produtivos e alcançou cerca de 600 mulheres, com impacto de cerca de 1.100 famílias. Pescadoras e marisqueiras artesanais, quebradeiras de coco babaçu, mulheres indígenas, quilombolas, de comunidades de fundo e fecho de pasto, mulheres catingueiras do semiárido, povos de terreiro e ciganas faziam parte das identidades dos grupos que contavam, ainda, com a participação de uma jovem ou um jovem bolsista, com formações voltadas ao fortalecimento dos grupos produtivos. Segundo Michelly Aragão, socióloga com mestrado em Políticas Públicas e Desenvolvimento Rural pela UFRPE e doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires, o projeto Jandaíras foi precursor como política pública pensada no fortalecimento e no fomento de grupos produtivos de mulheres de Povos e Comunidades Tradicionais (PCTs). A pesquisadora, que também é vinculada ao Núcleo Jurema, também da UFRPE, voltado a feminismos, agroecologia e ruralidades, comenta que o projeto foi renovado e passou a operar como programa, com cerca de 130 grupos, impactando as mulheres e as famílias de diferentes formas, entre elas na possibilidade de incidência e participação política a partir das demandas das comunidades, no acesso a políticas públicas e na troca de saberes, contexto que repercute na possibilidade de muitas das mulheres romperem com ciclos de violência.

Esse conjunto de ações e impactos contribuíram para que o Projeto Jandaíras fosse escolhido como relato de experiência para inscrição no Prêmio Margarida Alves e se classificado entre os finalistas. O artigo “Redes que alimentam: saberes, lutas e potências das pescadoras e marisqueiras no Nordeste brasileiro” foi elaborado de forma coletiva em coautoria por Michelly Aragão Guimarães Costa, Marli Gondim de Araújo, Laeticia Medeiros Jalil, Joana Franco do Nascimento e Fernanda Silva Nunes. O recorte utilizado para o relato submetido priorizou pescadoras e marisqueiras, identificadas como grupos com maior dificuldade de reconhecimento como sujeitos políticos, sociais e produtivos e de acesso a políticas públicas, incluindo pescadoras do litoral nordestino e de regiões continentais do semiárido, que também se reconhecem como agricultoras e mantêm quintais agroecológicos. No relato foram destacados conflitos socioambientais relacionados à mercantilização e privatização dos mares, acesso à água e offshores. “A gente pensou em contrabalancear essa experiência de fortalecimento da política pública, mas também não deixar de visibilizar esses conflitos socioambientais nos territórios e a própria agência das mulheres na construção de estratégias de auto-organização”, ressalta Michelly.
A pesquisadora também destacou o protagonismo das jovens mulheres participantes do Projeto, que contribuíram com o olhar e a linguagem da juventude na construção do relato, que envolveu professoras, pesquisadoras e jovens vinculadas ao Núcleo Jurema e aos territórios. Uma das ações do projeto foi oficinas de escrita, identificada como uma limitação para as jovens e mulheres. “(…) elas escrevem poesia, fazem teatro, elas constroem música, artesanato, essa parte do ativismo, como elas utilizam de linguagens culturais e artísticas para fortalecer as identidades. Mas a escrita ainda é um desafio bem grande para jovens da universidade, dos territórios e para as próprias mulheres”, salienta. Uma das jovens coautoras apresentou parte da experiência no Congresso Brasileiro de Agroecologia em 2025 e também apresentou a experiência em um canal de TV de Recife.
Michelly ressaltou, ainda, a importância da cocriação e da pluralidade na construção da política pública e de como ela chega nos territórios, além do destaque à perspectiva feminista do projeto. “A gente trabalhou com muitas metodologias em relação ao tempo das mulheres, à sobrecarga do trabalho doméstico, às violências de gênero, às violências no próprio território. Essa questão de fortalecimento da identidade enquanto PCT, da mulher se reconhecer, da jovem se reconhecer enquanto quilombola”, menciona a pesquisadora.

Para Michelly, o dia da premiação realizada em Brasília, em agosto deste ano, foi bonito e festivo, um momento de esperança depois de dez anos sem a realização do Prêmio Margarida Alves. “Foi uma luz de esperança, sabe? Perceber que a gente pode reconstruir, as coisas podem voltar, a gente nunca volta do mesmo lugar, porque foram muitos retrocessos. Mas é importante a gente poder retomar esse prêmio, essa experiência”, destaca Aragão, que ainda mencionou a felicidade que observou nas mulheres nos territórios ao saberem sobre a classificação no Prêmio.
Nesse mesmo cenário, outro trabalho premiado no Prêmio Margarida Alves de 2026 foi o artigo “A força política da Marcha das Margaridas na construção das políticas públicas de agroecologia no Brasil”, desenvolvido por Sarah Luiza de Souza Moreira, Doutora pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) no programa de pós-graduação em Ciências Sociais, em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, integrante do Núcleo Executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), da coordenação e da Secretaria Executiva do GT Mulheres da ANA. O trabalho de Sarah, que também é militante da Marcha Mundial das Mulheres e integrante da Coordenação Ampliada da Marcha das Margaridas, atualiza análise desenvolvida em sua dissertação de mestrado na Universidade de Brasília, no Mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural (PPG-Mader), e tinha como objetivo analisar a contribuição da Marcha das Margaridas para a construção das políticas públicas de agroecologia no Brasil. A autora, embasada na epistemologia feminista e na agroecologia, observa a importância da Marcha das Margaridas para a elaboração, proposição e acompanhamento das políticas públicas apresentadas pelas e para as mulheres do campo, das águas e das florestas ao longo de seus 26 anos de existência, especialmente durante governos progressistas. “Tiveram respostas concretas de políticas de acesso à terra, à água, à assistência técnica e extensão rural específica para mulheres”, destaca.

A pesquisadora menciona que, pela segunda vez, participa e é classificada no Prêmio Margarida Alves. “[O Prêmio] coloca no centro do debate as pesquisas sobre a realidade das mulheres rurais, das mulheres do campo, da floresta e das águas, trazendo Margarida Alves como referência de luta”, ressalta. Sarah aponta que estudos sobre ruralidades e feminismo ainda são pouco valorizados no campo acadêmico e o Prêmio ajuda a trazer visibilidade a esses temas. Além de ser um momento de premiação, para a militante é também um espaço de encontro entre pesquisadoras que estudam feminismo, agroecologia e ruralidades: “Foi muito bonito, muito emocionante, e acho que é uma grande conquista retomar esse Prêmio depois de tantos anos”, finaliza.
Os resultados desta premiação nos mostram que a pesquisa, quando inserida e fundamentada nos contextos sociais e culturais, tem a capacidade de respaldar a formulação de políticas públicas que poderão atuar no fortalecimento de direitos, transformar a vida das pessoas e a sociedade. O Prêmio Margarida Alves coloca luz sobre as pesquisas que têm se dedicado a olhar e ouvir as diferentes realidades das mulheres rurais de diferentes lugares do país. Essa ação coletiva e colaborativa contribui para a participação social, para o desenvolvimento dos territórios e das ruralidades.
Referências:
LOPES BARBOSA, Emerson; FERREIRA GONÇALVES, Alícia; ALVES RODRIGUES, Maria das Graças. A EXTENSÃO UNIVERSITÁRIA E O EFEITO DA INTERLOCUÇÃO DIALÓGICA NA FORMULAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS. Sanhauá – Revista de Extensão da UFPB, [S. l.], v. 1, n. 1, 2024. DOI: 10.22478/ufpb.2525-5584.2024v1n1.70180. Disponível em: https://periodicos.ufpb.br/index.php/snh/article/view/70180. Acesso em: 24 out. 2026.