Da memória da fuligem na adolescência ao prêmio de melhor tese, Ana Sabadin investiga o fogo não como combustão, mas como expressão de poder, acumulação e disputa territorial.
“A cena repete-se todos os anos, entre os meses de abril a novembro. Lembro-me de presenciá-la desde a adolescência, quando passei a morar no interior do estado de São Paulo. O céu, nesses meses, muda de cor. Avermelha-se. A fumaça passeia pela paisagem que, no mais das vezes, mescla tons de verde. O ar carrega-se de um cheiro incômodo, denso, capaz de arder os olhos. Pouco depois, as fuligens caem feito uma chuva lenta. Tento tocá-las, mas elas se desfazem nas palmas das minhas mãos. Viram pó, sujam os meus dedos. São o que sobra da queima das folhas e palhas da cana-de-açúcar. Apesar de saber de onde vinham, uma das minhas primeiras inquietações era entender o porquê de existirem” (SABADIN, 2024, p. 28).
O fogo chamava Ana desde a juventude. Algo das fuligens e da fumaça ficou guardado em seu interior. O tamborilar de chamas de velas acompanhou a construção de seu trabalho final para a obtenção do título de Doutora no Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), tese vencedora do Prêmio Maria de Nazareth Baudel Wanderlei em 2025, durante o 11º Encontro da Rede de Estudos Rurais, em Vitória da Conquista-BA. Ana Carina Sabadin colocou intenção no olhar atento à sua volta e, a partir de sua pueril observação, desenvolveu, desde os primeiros trabalhos de iniciação científica na graduação em Ciências Sociais pela UFSCar, pesquisas relacionadas à queima dos canaviais. “Atenta aos ônibus rurais e às máquinas que circulavam – e ainda circulam – pelas mesmas estradas, investigo as motivações não econômicas que permitem a coexistência de trabalhadores e colheitadeiras realizando a tarefa do corte da cana-de-açúcar” (SABADIN, 2024, p. 28).
Na disciplina de Sociologia Rural teve contato com Rodrigo Constante Martins, professor associado do Departamento de Sociologia, do Programa de Pós-graduação em Sociologia e do Programa de Pós-graduação em Ciências Ambientais da UFSCar, orientador de sua tese e atual supervisor de pós-doutorado. Em suas leituras conheceu Maria Aparecida de Moraes Silva, professora visitante do programa de Pós-graduação em Sociologia da UFSCar, líder de grupo do CNPq “Terra, trabalho, memória, migrações” na mesma universidade, além de vencedora do Prêmio de Excelência Acadêmica Antônio Flávio Pierucci em Sociologia conferido pela ANPOCS em 2024.
Desacomodada por questionamentos sobre a coexistência do trabalho manual e das máquinas, Ana iniciou sua pesquisa, em diálogo com Rodrigo Constante Martins e com Gabriel Feltran. Ana investigava, desde o princípio, o fogo como construção política e simbólica: expressão de relações de poder, acumulação de capital e disputas territoriais. “Se existia a máquina pra fazer uma função, por que os trabalhadores ainda estavam ali?”, perguntava a pesquisadora.
Em entrevista com representantes sindicais, trabalhadores do corte da cana e das usinas, ela buscava compreender as contratações dos trabalhadores e as implicações do Protocolo Agroambiental Paulista, um processo de “cooperação entre o poder público e o setor sucroalcooleiro paulista que visa à eliminação gradual das queimadas nos canaviais. […] uma adesão voluntária de usinas e fornecedores de cana e busca acelerar os prazos para que essa eliminação ocorra” (SABADIN, 2024, p. 99). A análise da pesquisa de Ana apontava para a manutenção e criação de novos conflitos relacionados às queimadas. Em sua dissertação de mestrado, o protocolo foi trabalhado de forma ainda mais direta, no sentido de compreender quais eram os interesses políticos e econômicos que culminaram na sua construção. Ela seguiu avançando na análise sobre as queimadas a fim de entender os efeitos do protocolo. “Eu comecei a olhar à minha volta, que o fogo não tinha acabado, não enxergava mais a queimada como uma queima controlada, (…) era um fogo diferente, visualmente falando, porque o horário que ele aparecia era diferente, a forma como ele estava se manifestando era diferente”, comenta Sabadin, salientando que o protocolo havia eliminado as queimadas, no entanto o fogo ainda estava presente.

O que é o fogo?
No processo de construção de sua tese de doutorado, Ana participou do projeto “Nas franjas do progresso. Efeitos socioambientais da produção canavieira nos estados de Alagoas e São Paulo”. Junto a outros pesquisadores e em meio à pandemia de Covid-19, a pesquisadora realizou o levantamento bibliográfico e documental, além de realizar seminários coletivos online, já que a pesquisa de campo não era possível naquele momento. Neste contexto, Ana observava que mesmo que a narrativa do setor da cana-de-açúcar afirmasse que o fogo havia sido eliminado, os incêndios continuavam emergindo. Ela destaca que desde o princípio as dúvidas que a incomodavam eram: o que é o fogo e como tratar este tema a partir da sociologia? “Eu fui escrevendo o texto tentando responder isso. Os processos de acumulação e as relações de poder do setor da cana-de-açúcar no estado de São Paulo a partir do fogo como uma alegoria para entender tudo isso”, menciona Sabadin.
Literatura, mitologia, psicanálise, biofísica, termodinâmica… diferentes lentes foram utilizadas pela jovem pesquisadora para entender o fogo. “No primeiro momento era tudo fogo, mas depois a gente vai avançando, entendendo que tem nomeações diferentes, interesses diferentes”, salienta. Ana trabalhou a trajetória social das queimadas nos canaviais paulistas utilizando como recurso analítico outras trajetórias que se dão no âmbito simbólico. O acender, o apagar, o oscilar e o inflamar do fogo foram guiando a construção da tese buscando responder: porque as queimadas existem? Como se transformam ao longo do tempo? “Eu penso as queimadas não só enquanto uma prática, mas enquanto uma ideia, um constructo, que vai se modificando, se ajustando, a depender dos interesses do setor da cana, e isso tudo com respaldo estatal”, destaca.

Quando seu orientador Rodrigo Constante Martins confirmou, a tranquilizando, que ela tinha, sim, uma tese, ele também reiterou que “sua tese é pensar o fogo não como uma combustão, mas como uma construção política e simbólica”, relembra Ana. “Não era meu objetivo falar sobre o fogo diretamente. Não era o meu objeto de pesquisa, mas foi a questão com a qual eu dormia e acordava todos os dias”, menciona.
Na França, em seu doutorado sanduíche, ao explicar seu projeto, ela comenta que as pessoas ficavam confusas, pois o uso do fogo ocorre de forma diferente no Brasil. Faltava, aos franceses, uma dimensão de colonização que os latinoamericamos entendem bem, como ilustra o título do livro de Jeferson Garcia, -“O fogo queima diferente abaixo da linha do Equador”. Ao voltar para o Brasil, Sabadin percebeu singularidades no fogo dentro de seu território. Ela observava que o fogo nos canaviais em forma de queimadas não era o mesmo fogo da Floresta Amazônica, assim como também não era o mesmo fogo do Pantanal, já que cada um possui uma dinâmica específica. “E eu fui me dar conta disso, não aqui no Brasil, mas a hora que eu saí e olhei de fora”, salienta.
Para Ana, os fogos são diferentes não pela distinção das chamas, ou pela variação de ventos ou temperaturas, mas pela faísca inicial que espalha o fogo em cada localidade. “Tem a ver com disputa econômica, política, tem a ver com o fato de desmatar para expulsar a população, é para queimar a palha da cana que não tem utilidade”. Em sua tese, ela se dedicou a observar os vários fogos aparecendo pelo mundo inteiro, em vários continentes e países, tudo pegando fogo ao mesmo tempo. Sabadin destaca que as condições climáticas contribuem para que o fogo se disperse mais facilmente, mas que o fogo é, na grande maioria das vezes, provocado pela ação humana que, diferente do uso em comunidades tradicionais para limpar terreno e fertilizar a terra, é usado para a destruição. “Tem que olhar para a dinâmica daquilo que está provocando o fogo, em cada localidade vai ser diferente. Só que a gente volta [para] pensar a própria história do Brasil, da formação das cidades, da formação da nossa sociedade mesmo, sempre precisou do fogo para desmatar, para destruir, para expulsar”.

Além disso, Ana se propôs a questionar sobre quais interesses inflamam estas queimadas, perguntando: Que fogo é esse, afinal, e o que ele está tentando eliminar? O que motiva essas queimadas e o que, simbolicamente ou concretamente, se busca retirar do caminho? E por que não se consegue controlá-las? Quais interesses estão por trás da ausência de políticas efetivas, mesmo após tantos episódios? Esta foi a incógnita que moveu Ana na construção de sua tese, reconhecida e premiada por sua relevância pública e científica.
(…)
Porque mesmo que queimem a escrita,
Não queimarão a oralidade.
Mesmo que queimem os símbolos,
Não queimarão os significados.
Mesmo queimando o nosso povo
Não queimarão a ancestralidade.-Trecho de poema de Antonio Bispo dos Santos
Da tese ao reconhecimento nacional
O Prêmio Maria de Nazareth Baudel Wanderley, concedido a Ana em 2025, pela melhor tese de doutorado defendida em Programas de Pós-Graduação vinculados à área de Ciências Humanas e Interdisciplinares, foi criado em 2016 e contempla trabalhos em que a temática central da pesquisa seja relacionada ao mundo rural brasileiro. A premiação tem como objetivo reconhecer e ampliar o acesso à produção científica, assim como incentivar a produção de teses nos Centros Nacionais de Pesquisas e Pós-Graduação do País e Instituições de Ensino Superior.
Maria de Nazareth Baudel Wanderley é homenageada ao dar nome à premiação, em reconhecimento à sua trajetória como professora, pesquisadora e como uma das idealizadoras e sócia-fundadoras da Rede de Estudos Rurais. Saiba mais sobre o prêmio e sobre a trajetória de Maria de Nazareth aqui.
Para Ana, receber o prêmio foi motivo de muita alegria e realização, considerando, também, todas as pessoas que a deram suporte no processo de construção da escrita, além das referências às quais teve a oportunidade de ler e de conhecer. “São anos, né? Fiquei cinco anos no doutorado. Então, até amadurecer a pesquisa e ser atravessada por uma pandemia, por cortes do governo Bolsonaro, por cortes nas políticas ambientais, vendo tudo ruir e mesmo assim você tem que escrever, tem que ir contra essa maré, tem que resistir”, ressalta a pesquisadora.
Ana menciona, ainda, que havia desistido de realizar o pós-doutorado, porém o fogo a chamou. “[Vi] o estado inteiro em chamas e todo mundo me perguntando: ‘Ana, o que você acha que está acontecendo?’ O fogo estava atravessando a estrada, invadindo matas, alcançando beira de condomínio”, relembra. Vale mencionar que no ano de 2024 houve recordes de queimadas nos canaviais paulistas devido ao calor e secas extremas enfrentadas em todo o país, reforçando a característica dessas monoculturas enquanto paisagens inflamáveis em contexto de emergências climáticas.
Atualmente, Sabadin se dedica ao seu projeto de pós-doutorado em Sociologia na UFSCar com a supervisão de Rodrigo Constante Martins, avançando na discussão sobre as disputas e os agentes que emergem junto aos incêndios na zona rural paulista, não apenas nos canaviais. Ela está realizando uma revisão de literatura e um levantamento de notícias sobre os incêndios, com destaque para os episódios mais recentes, especialmente os ocorridos em 2024. “Minha trajetória não acabou, o fogo não acabou. Agora eu entendi como tratar o fogo, o que é o fogo na minha interpretação, na sociologia”, comenta, destacando que a tese buscou compreender uma realidade em constante movimento. Segundo ela, seu objetivo não é condenar o fogo, mas entender o que faz esse fogo existir. “Antes de riscar o fósforo ali, o que está acontecendo? O fogo é expressão de algo, [quero] olhar o que ele está expressando”.
-Que ao olharmos as chamas que ainda se mantêm acesas nos canaviais, possamos nos lembrar de que elas são produzidas entre as faíscas do poder e as fuligens da acumulação do capital. (SABADIN, 2024, p. 190)
Acesse a tese de Ana Sabadin aqui.
Por Julia Saggioratto, assessora de comunicação da Rede de Estudos Rurais.