
Iniciativa da ANA mostra que as soluções para as mudanças climáticas já existem e estão sendo cultivadas por agricultores, povos tradicionais e redes de agroecologia
Anunciar outras possibilidades de produção de alimentos e de relações humanas é uma das tarefas que inúmeras organizações e movimentos sociais se dedicam a realizar historicamente. Uma destas organizações é a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), constituída em 2002, que tem como uma de suas frentes dar visibilidade à realidade da agricultura de base familiar e às propostas defendidas pelo campo agroecológico de modo a estimular uma atitude proativa em defesa dessas propostas. A ANA, conforme consta em seu site, “é um espaço de articulação e convergência entre movimentos, redes e organizações da sociedade civil brasileira engajadas em experiências concretas de promoção da agroecologia, de fortalecimento da produção familiar e de construção de alternativas sustentáveis de desenvolvimento rural”. Uma de suas estratégias é a produção de conhecimento a partir da perspectiva da pesquisa-ação em conexão com agricultores, povos e comunidades tradicionais que estão nos territórios desenvolvendo experiências e práticas cotidianamente.

Para isso, a Articulação desenvolve outra frente que é mapear experiências ou iniciativas de desenvolvimento local e territorial realizadas por organizações, coletivos, grupos, redes e movimentos sociais. A partir destas duas frentes é possível, então, realizar o trabalho de incidência sobre as políticas públicas, no sentido de que elas sejam capazes de corresponder à diversidade dos territórios. “Isso cria uma nova cultura para as próprias políticas públicas, para inverter esse vetor, em vez de ser de cima para baixo, passa a ser de baixo para cima, com as próprias experiências se colocando como parte desse processo, de pensar e elaborar as políticas públicas”, é o que menciona Helena Lopes, integrante do Grupo de Trabalho de Justiça Climática e Agroecologia da ANA e da Fundação Oswaldo Cruz, da Agenda de Saúde e Agroecologia.
Neste ano a ANA realiza o projeto “Redes de agroecologia no enfrentamento às mudanças climáticas: uma pesquisa-ação desde os territórios”, coordenado pelo GT no qual Helena faz parte, e que teve como primeira etapa de investigação o “Mapeamento Agroecologia, Território e Justiça Climática”, realizado entre abril e junho. O mapeamento consiste em identificar experiências de agroecologia desenvolvidas por organizações, movimentos sociais, redes, grupos e coletivos nos territórios diante aos impactos das mudanças climáticas. Este processo, além do GT e a ANA, envolveu a atuação de cinco pesquisadoras que estiveram em cada região do Brasil identificando as experiências e mobilizando atores coletivos sobre a importância do mapeamento. “A presença dessas pesquisadoras, que são também mobilizadoras, é fundamental porque ela ajuda a traduzir para aquela região a importância desse mapeamento”, destaca Helena, que também é pesquisadora sobre temas como agroecologia, saúde, justiça climática e segurança alimentar e nutricional.

As soluções estão dadas e são diversas
O processo de mapeamento, de acordo com a pesquisadora Helena Lopes, tem sido um aprendizado coletivo, já que termos como justiça climática, adaptação, mitigação, por exemplo, podem ser novos em muitas regiões, evidenciando uma necessidade de o campo agroecológico dominar essa gramática para constituir uma concepção do que significa mudanças climáticas a partir da agroecologia e da diversidade de experiências. Para Helena, existe uma setorialização na elaboração das políticas públicas e o mapeamento deixa nítido que esta não é uma metodologia adequada quando se fala de mudanças climáticas.
Ela destaca que há uma conexão profunda entre política agrária e política ambiental, relacionando, por exemplo, a expulsão de agricultores familiares, povos e comunidades tradicionais de seus territórios com o sistema agroalimentar hegemônico. Segundo ela, as soluções para as mudanças climáticas estão dadas e são diversas, as quais estão sendo constituídas cotidianamente nos territórios em conjunto com as instituições de ensino, pesquisa e extensão. No entanto, a destruição dos territórios, o processo de conflito, expulsão e violência, minam exatamente as possibilidades de soluções criativas. “Não existe uma única resposta, as respostas da Amazônia são diferentes das do Sul, porque a forma como as mudanças climáticas impactam diferentes territórios ou paisagens é distinta e por isso as soluções devem ser distintas”, finaliza.
A partir de agora, com os dados coletados e armazenados na Plataforma Agroecologia em Rede, o próximo passo da pesquisa é realizar análises quantitativas e qualitativas e iniciar o processo de divulgação. A publicação final, fruto das análises e do mapeamento coletivo, será divulgada no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia (CBA), em momentos de diálogos e trocas entre pesquisadores/as, agricultores/as, povos indígenas e comunidades quilombolas, fortalecendo o exercício coletivo da produção do conhecimento. O Congresso será realizado em outubro em Juazeiro-BA e terá como tema “Agroecologia, Convivência com os Territórios Brasileiros e Justiça Climática”.
Além disso a pesquisa também será apresentada e debatida em atividade realizada na Cúpula dos Povos, um espaço mobilização de diversas frentes sociais e ambientais do Brasil em que comunidades indígenas, tradicionais e periféricas debatem e constroem suas pautas de forma unificada em paralelo à COP30, que acontece em novembro deste ano em Belém-PA.
Por Julia Saggioratto, assessoria de comunicação da Rede de Estudos Rurais.